13 dezembro, 2010

Existe sempre uma coisa ausente

Existe sempre uma coisa ausente,
mesmo que inaudível,
sucinta.
Há sempre a sensação do não haver,
do que se foi
ou do que se deveria ter feito.
Mas você não se importa,
apenas sente.
Depois ri.
Ri e chora,
apenas por ter sentido.
Ando angustiada demais, meu amigo. Palavrinha antiga essa, angústia. Duas décadas de convívio cotidiano, mas ando. Tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso. Não me venha com essas histórias de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais. Nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha. Veja só que coisa mais individualista, elitista, capitalista. Só queria ser feliz, cara.

Caio Fernando Abreu.

03 dezembro, 2010

Queridos Anônimos

Anônimo:
Adj. 1. Sem o nome ou assinatura do autor. 2. Sem nome ou nomeada; obscuro
Dicionário Aurélio

Até que ponto somos anônimos? Qual a importância do tão requisitado nome? E os tais nomes garantem "reconhecimento"?

O homem olhava a mulher que aguardava o ônibus com os filhos, que fitavam curiosos o cachorro do senhor que comprava o jornal. A moça conversava com a amiga que observava o rapaz com fones no ouvido, que por sua vez assistia o desespero do menino que estava atrasado e pedia pra o ônibus parar.

Os anônimos são encantadores com suas infinitas semelhanças distintas. Particularidades sutis e sonhos estampados em simples olhares. Porém, há de convir que alguns tendem a ser desprezíveis, superficialmente, mas ainda sim desprezíveis. Mas independente de qualquer coisa, os anônimos são cativantes em todos os aspectos, instigantes.

Repentinamente a impaciência se fez comum em todos os semblantes, a espera já se estendia por um longo tempo. A menina que mais parecia uma boneca perguntou a senhora com roupas floridas que contrariava o dia cinzento:
- Que horas são, por favor?
- 7h30 - respondeu num tom afável
- Obrigada

A partir do convivío (não verbal) e de qualidades (supositórias) que atribuímos, os anônimos deixam este posto; fazendo com que sua presença seja confortadora e até mesmo familiar. Os gestos quebram os anonimatos, os tais nomes se tornam dispensáveis. Somos lembrados apenas por nossa sincera e anônima mudez.

Enfim a espera termina. O motorista aguarda todos subirem, enquanto dois amigos tomavam coragem para pedir carona ao cobrador, que por sua vez fitava o nada até ser surpreendido pelo trovão que anunciava a chuva.

Ah, os anônimos, seus olhares se tornam expressivos mesmo na inexpressão.

02 dezembro, 2010

Stupid bro

O respeito deixou de ser mútuo
Toda a admiração que se tinha foi diluida numa jarra de indiferença
O héroi nacional agora é apenas um coadjuvante cumprindo seu dever
E você não pode fazer nada
O convívio te obriga a se conter, limitar gestos e palavras
Colocar aquela velha máscara remendada e tomar uma boa dose de adaptação
Pois é, se decepcionar é um ciclo, se acostume, todos o farão.

29 outubro, 2010

Trago boas novas

Lembro-me das vezes que íamos ao cinema
- quando esta era a única opção de nos divertir da época.
E era uma boa época.
Riamos de maneira demasiada,
por nenhum motivo aparente.
As ruas tinham um cheiro de rum
e as mulheres vestiam-se para partir
alguns corações desavisados.
Com aqueles espartilhos justos,
exuberando seus seios fartos e noviços.

E eu morava perto do centro.
E da minha sacada eu via toda a cidade,
ou o que eu imaginava que era a cidade.
Via pessoas vazias,
cachorros solitários
e algumas boas moças miúdas de bochechas rosadas.

E eu admirava.
Admirava e bebia.
Admirava, bebia e fumava.
Naquela época, era um bom requisito fumar.
E eu tentava me encaixar
nesta sociedade de fumantes de bom porte.

Por vezes,
ensaiava no espelho algum caráter provisório.
E fumava.
E ria.
E era uma boa época.

05 outubro, 2010

We come alive

Esse estado de putrefação mental
seria apenas mais um estado
se este corpo que o abriga
não estivesse por inteiro morto.

e as pálpebras saltadas
conseguinte de muitas noites em claro
a ver estrelas tão vivas e invejá-las.
Todas tão altas
como se o amanhecer
fosse tardar a chegar
como se elas não fossem incineradas
com os novos raios a surgir.

a pele pálida,
feito corpo sem alma
apenas para sofrer e perdurar.

enrijecida está a lucidez
e ela comemora,
comemora por não fazer parte
da maioria fatídica de humanos
a fingirem racionalidade
e a se perderem em bares sujos e frustrações.

E a vida segue assim
a invejá-los e caçoá-los
sem uma rotina pré determinada
apenas sentindo os vermes a carcome-la
com a mesma velocidade de amores passados.

20 agosto, 2010

Paro e penso: porque?

E se a história fosse outra?
Ainda seriamos sombras da evolução?
E os verdadeiros méritos?
E os nossos atos que ganharam novos titulares?
Estaria a história invertendo os papeis?
Quem mudará essa realidade se todos querem ver seus nomes no alto da coluna social?
Quem somos nós se a verdade é um disfarce?
Seriamos capazes de construir a verdade se ela nos cai como grandes devaneios?
Aliás, não seria preciso uma revolução na história, para que assim houvesse uma construção da verdade?
A lógica está errada.

16 agosto, 2010

Enfermo contínuo

Num cubículo imundo, o clima era gélido e as pessoas mais ainda:
- Há quanto tempo você descobriu a doença?
- 3 anos
- E por que só agora procura tratamento?
- É porque só agora tenho dificuldades para respirar.

Os corpos estavam rígidos e os olhos atentos. O silêncio começava a ficar constrangedor:
- Vou receitar um medicamento para você tomar durante 6 meses, ok?
- Não existe nada eficaz a curto prazo?
- Por enquanto, não.
- E se eu não suportar?
- "Não suportar" não é uma opção.

Enquanto todos se entreolhavam, o rangido da porta dissolvia o silêncio e começava uma nova melodia.

Regresso

[...] as lágrimas permaneciam estagnadas em seu olhar, desde que ela partira um novo vazio preenchia sua vida. O tempo insistia em não passar. A saudade crescia descontroladamente. Sua máscara de despreocupação começava a derreter, a ansiedade era rotineira, até que ela voltara. Aquele sorriso contagiante e olhar confortador fizeram com que as lágrimas finalmente escorressem. Surpresas, histórias e lembranças. Depois de um longo abraço o vazio inexistia.

11 julho, 2010

Maior abandonado

Sentou, pediu uma dose de caipirinha com gelo e acrescentou ao dono do bar:

- É fato sabido... As coisas tendem a mudança.

O dono do bar, acostumado às filosofias de outros bêbados, que outrora havia passado por ali, meneava a cabeça como gesto de concordância, dando vazão a todo o desabafo.

- A adaptação é inevitável, mais não digerível (...).

Pegando o drink, fez uma breve pausa, deixou seu olhar se perder no ambiente. Bebeu e continuou com ar de desgosto:

- Vão aos montes, rasgando as suas vísceras. 

(...)

- Algo pra justificar a tensão. 

A essa altura o dono do bar já havia ido atender outros clientes que acabara de adentrar o bar. Com um semblante estagnado, ele continuara:

- E as memórias são conseqüências ludibrias. Soníferos para dormir.
- Fotos antigas de um passado de meias verdades
.

Pareceu segurar o choro que lhe incomodava a garganta. Fez silêncio, observou o ambiente. Percebera agora que o dono do bar já não o ouvia mais.

(...)

- Mais uma dose, por favor!

08 julho, 2010

Otherside

A infelicidade que escorre por minhas vísceras,
Que embebedece minhas prosas
E causa-me sensações de inquietação,
São amarguras clandestinas
De um amor sem sentido.
E este vazio que adentra minhas pálpebras
Mostrando-me uma realidade vil,
É o mais perto de você que eu conseguirei chegar.

18 junho, 2010

Fast school

- Ei, traga-me o cardápio, por favor!
- Aqui está senhor.

Numa quinta feira à noite, a recepção não podia ser melhor: alternativas absurdas quentinhas. Vindas de um ser aparentemente superior então, tinha o gosto muito mais saboroso. Gosto de individualismo misturado com indiferença. Azedo. A ânsia de vômito era prevísivel.

- Já escolheu o que vai querer senhor?
- Você tem alguma sugestão?

A repressão chegou aos poucos. Primeiro uma porção de falsa preocupação, uma de oportunidade inviável, depois uma de argumentos estúpidos acompanhado por distorção de opiniões.

- Decidi o que vou pedir. Quero essa metralhadora, uma granada e uma pitada de atenção.
- Atenção com hipocrisia ou sem?
- Sem.
- Ok. Vou trazer.

A hipocrisia era tão evidente, chegava a ser constrangedora. Os princípios burocráticos eram tidos como solução, o aprendizado era só uma possível consequência. Os números eram os anfitriões, eles é que realmente importam.

- Algo mais?
- Vocês têm interesse coletivo aqui?
- No momento está em falta.

Tudo se desgastou. A comunicação foi falha. As contradições internas nos enfraqueciam. As ameaças surtiram efeito e os únicos prejudicados simplesmente se renderam, fecharam a boca e os olhos para os problemas, e ainda acusaram os que se pronunciavam.

- O que o senhor vai beber?
- Uma dose de problemas normais, por favor.
- Com alienação ou não?
- Com alienação e tudo que tenho direito.

Um porre só pra abstrair. Relaxar, refletir e não esquecer. Precisamos de resultados concretos. Amanhã é outro dia, "do the revolution, baby"

- Boa noite, volte sempre!
- Boa noite, com certeza vou voltar.

12 junho, 2010

Empirismo

Era final de tarde, o crespusculo no céu anunciava-se ás 17:00pm.
A lua alta, posicionava-se como de costume. As pessoas trafegavam apressadas, tentavam fugir do frio que lhe incomodavam a espinha, ou apenas da rotina angustiante que vivera no trabalho. Cachorros vagavam em volta dos que ali passavam, causando sensações de irritabilidade. Ônibus lotado, euforia e conversas aleatorias. Buzinas, sirenes. Uma criança a chorar. Imaginara os sorrisos que foram perdidos, os sentimentos nunca confessados e os sonhos que com o tempo foram dispersos.

05 junho, 2010

Clocks and Flowers

"I wish I could say no regrets
And no emotional debts
'Cause as we kissed goodbye the sun sets..."

Com os olhos marejados, ela escutava a canção. Ele lhe trouxera flores, rosas vermelhas, perfumadas e repugnantes. O som estava alto, preenchia todo o lugar, exceto sua mente; eram 2:00 e ela fitava o relógio. - Maldita insônia - pensou em voz alta. O cheiro das rosas era corrosivo, passava por suas narinas despertando um turbilhão de pensamentos rancorosos. 5:00 am, o dia já havia nascido e as notas musicais continuavam a bailar junto a ira, decepção e questionamentos de sua cabeça. Não conseguia abstrair, a cada minuto pensava em algo novo.
8:00 am. Concentrou-se na musica, deixou que ela invadisse seus ouvidos, analisou a letra, diferenciou as notas, buscou por cada detalhe que a desligasse de tudo que a angustiava; decompôs a canção até que se perdeu nela, adormeceu vagarosamente.
16:00 pm despertou renovada, enfim as rosas murcharam.

Procura-se uma ilusão

Há tempos procuro uma ilusão
Sem exigências,
curta,
longa,
Só pra distrair,
sonhar melhor
criar expectativas
e dar risada.
Só pra flutuar, não sentir o chão
e simplesmente não poder cair.

Uma ilusão rasa
Talvez só pra entender as pessoas
e tentar acompanhá-las
Ou uma ilusão profunda
para inventar significados
e descobrir virtudes
Enfim, sem exigências

Uma ilusão
Só pra divertir
confundir,
acreditar
e talvez até vivê-la

03 junho, 2010

Agora que acordei #2

Os olhares aparentemente dispersos,
soltos no ar, bailavam.
E neste vai e vem de sentimentos incompletos,
As perguntas - irrelevantes no entanto,
Levavam a loucura uma mente cheia de desejos sórdidos.
E o pouco de altruísmo que lhe restavam,
Estavam agora apontados para direções opostas.
Era como acordar de um devaneio pungente.

Título de: jardielcarvalho.blogspot.com

25 maio, 2010

We never change

E o caminho se mostra extenso, com características semelhantes as anteriores que o causaram o mesmo sentimento de languidez. E o ar ainda é frio, espesso e turbulento, deixando os dias tão mais cinzentos aos olhos de um esperançoso. Um alguém que chora. Um alguém que chora e gorjeia versos em códigos. E talvez isso seja um grito de socorro. Por favor, volte.

20 maio, 2010

Ideia #2

A proposta pairava no ar
e elas aspiraram o quanto podiam
As opiniões caíram por todos os lados
e elas estavam com sede
Os empecilhos surgiram
e a ideia virou alimento

"Silence is the enemy,
So gimme, gimme revolution!"
Know your enemy - Green Day

09 maio, 2010

5 atos

Morte,
por mais que essa seja súbita;
Vida,
por mais que essa se prolongue;
Dor,
por mais que essa nunca atenue;
Felicidade,
por mais que essa eu desconheça;
Questione,
por mais que isso o enfraqueça.

28 abril, 2010

Holiday

Marche de encontro à desaceleração
O monopólio
Impondo as mesmas contradições
Com bases numéricas quase impostas
Quase digeríveis
O velho sistema falho
Obliquo
A insistência da burocracia
Da comodidade
A imposição do maior para o menor
Ou seria propriamente dito:
Do menor ao maior?
O ego usado como perseguição evasiva
Jogando a mesma bosta palatável
Esperando que nossas vísceras
Suportem e se calem.

13 abril, 2010

Mil verdades

Segunda feira de manhã,
mais um dia de trabalho.
Ela acabara de descer no ponto,
Iria esperar outro ônibus
Seus olhos, porém, não estavam atentos a isso.
Ela fitava a multidão atravessando a rua
e entre todos os rostos atrasados e aflitos,
encontrou um par de olhos que a olhava fixamente.
Era um homem, bonito e esguio.
Eles se encararam por um curto e intenso momento
Ela imaginou suas caracteristicas e gostos. E ele também o fez.
Por acaso, ou não, eles pegaram o mesmo ônibus
Descobriram coisas em comum e conversaram o tempo todo

Não,na verdade, não foi isso que aconteceu.
Eu estava lá, eu vi.
Eles realmente pegaram o mesmo ônibus,
mas assim que conversaram ela percebeu
que ele não era nada do que esperava e vice-versa.
Foi como se uma troca de olhares criasse pessoas
e uma troca de palavras as destruisse.
O diálogo foi vazio, eles ficaram mudos a viagem inteira

Não, na verdade, também não foi isso que aconteceu
Eles não pegaram o mesmo ônibus
Só conversaram no ponto,e nunca mais se viram.

Na verdade, eles só se encararam
Na verdade, ele nem atravessou
Na verdade, ela nem desceu naquele ponto.
Na verdade, ela estava de férias.

Na verdade, eu não estava lá.

31 março, 2010

Caráter eleitoral

Há uma nova ordem vindo
Poucos os escolhidos
Uma cartada certeira
E uma farsa na manga
Truques sem fim
No começo planejamento
Sorrisos e soluções.
Soluções.
Coisas provisorias
Logo então o descaso
A mentira, a manipulação.
As mesas estão prontas
O comodismo a favor
E um pouco de comerciais de 1 hora
O mesmo besteirol de sempre
Talvez a nova mentira de sempre
Dizendo se tão espertos
Conquistam nossos lares
Infringem nosso pensamento
Mantendo nos sem recursos
Sem escolha
Comprando nos com esperança
Esperança.
E quando damo-lhes o gosto de tal
Somos atacados
Desrespeitados quase sempre
Atingidos pelo mesmo voto de confiança
Para os proximos 4 anos
Nos planfetos
Na tv
Na rua.
Os 9% de diferença
Parece ser o suficiente para uma
Bomba atomica.
O comodismo cronico ainda nos matará.

28 março, 2010

Verdades mal contadas

Alguém me dizia que ladrão usava arma, faca ou canivete; só depois fui saber que eles também usam gravatas e fardas,
Todos me diziam para não me envolver com drogas;
até que percebi que todos assistiam novelas.
Sempre me diziam pra ler jornal;
só depois descobri que as informações eram manipuladas.
"Há liberdade de expressão”, é o que me diziam;
até que vi as cordas que prendiam os fantoches.
Diziam-me que o mundo ia acabar em 2000
até que estreiou 2012
Uma vez me disseram que na vida, todos somos malabaristas;
mas parece que cheguei atrasado e só me sobrou a vaga de palhaço.
Também me diziam que vivíamos em democracia;
mas nisso nem deu tempo de acreditar.


"Eu estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco...
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco,
Já eram horas de dormir de novo"

Mario Quintana

27 março, 2010

21

Direitos foram perdidos no caminho, e parece que 21 dias não são o bastante para encontrá-los

21 dias buscando melhorias,mudanças.
pagando um preço alto e
ganhando em troca a rejeição.

21 dias ocultos,
Ninguém sabe o que acontece
simplesmente porque ninguém mostra o que acontece

21 dias inferiorizados
números e intenções manipuladas
Capitalismo na veia e opressão gratuita

O futuro presidente está se escondendo,
colocando os fantoches em campo
Os prejudicados estão acomodados

É, 21 dias de ditadura no seculo 21.
Fica tranquilo que é só o começo.

22 março, 2010

O outono está florescendo

Na viagem de volta
Ela os imaginara:
Tropeçando e rindo juntos
E pareciam tão felizes
Rindo e tropeçando juntos
Balbuciando palavras sem sentido
Sentindo a nova brisa de outono.
Conversas aleatórias.
Os corpos cheios de adrelina sentiam o chão gélido
E debocharam um do outro
Rindo e tropeçando juntos
Tropeçando e rindo...
Juntos
Como se o amanhã fosse tardar a chegar...
Mais uma vez

15 março, 2010

Recortes de Jornal

Eis o sol
Anunciando o recomeço diário
Com as mesmas indagações
O mesmo ar poluido
Que tapam nossos orificios e nos asfixia
Nos cega pro real problema
Como a justiça.
E talvez o ditado esteja certo afinal:
"Em terra de cego quem tem olho é rei"

12 março, 2010

Empecilhos

O sol se põe, os olhos se abrem
e mais um dia começa
o tempo não espera
pé esquerdo no chão,
supertição não interessa

Perdeu o ônibus,
sujou a roupa
e seus amigos não estavam lá
tropeçou em ironias
escorregou em justificativas
e quase caiu em suas próprias suposições

Sentia-se mal
Contratempos alheios
ofuscaram seus anseios

Tinha uma pedra no meio do caminho
E ele não podia pulá-la
ela era invisível, atrapalhava em silêncio
Ele não podia pulá-la
Não hoje

03 março, 2010

Bastardos

Mais um artigo violado,
Mais um direito friamente ignorado,
O trabalho infantil é cruel,
pois os governantes insistem em não fazer seu papel
A sociedade também é culpada
Fecha os olhos e boca como já está acostumada
A família, muitas vezes não tem opção
Vítimas do capitalismo, fazem tudo por seu pão

16 anos é a idade mínima para trabalhar,
Mas lavoura, farol e Nike não escolhem tamanho
Pra que? Eles nem precisam registrar
Crianças, eternos escravos da necessidade

28 fevereiro, 2010

Limite escolar

As vezes os textos que fazemos na escola são tão desprezíveis, não por erros gramaticais ou ortográficos, mas pela perda do seu real sentido. Há uma espécie de obrigação, que nem sempre é vantajosa (como no meu caso), é claro, que existem redações ótimas até porque algumas pessoas lidam bem com pressão, acho que é como um incentivo; mas toda essa burocracia como número de linhas, curto tempo e temas abrangentes demais, limitam e confundem um pouco. Entendo que é necessário, pois é isso que nos cobrarão mais tarde, mas acho que são completamente descartáveis no momento inicial. Já ouvi dizer que textos e poemas são como partos, demorados e dolorosos, portanto, acredito que textos escolares sejam como partos induzidos: o bebê nasce rápido, mas nem sempre saudável.

21 fevereiro, 2010

Cooperifa

Numa quarta feira qualquer a música nos recepcionou,
O companheirismo nos acolheu,
E toda aquela união e alegria nos encantou
Os problemas ficaram bem longe, talvez na primeira curva.

O prato principal eram as palavras
Palavras cantadas,
recitadas,
ditas,
sentidas.
Elas bailavam no ar, suprindo toda necessidade da alma.

As pessoas se expressavam com paixão e sinceridade
Falavam com olhos, mãos e boca.
Transmitiam mensagens revigorantes
De fato exteorizavam seu interior

Quem diria que numa quarta feira tão cinzenta
encontraríamos um vício tão colorido.

Aquela música

Um som desconcertante invadia seus fones de ouvido, a introdução era curta mas o bastante para reconhecer aquela música.O baixo e a bateria contagiavam com sua sincronia, e a guitarra surgia subitamente acompanhada de uma voz histérica; uma perfeita harmonia, mas não para ele.Aquela melodia lhe trazia angustia, não sabia ao certo o motivo, mas tinha sensações ruins quando a ouvia. Os quatro minutos de música duraram horas, ele não conseguia deixar de ouvir, parecia um vício mas ele não sentia prazer, então era mais como uma obrigação; uma obrigação sonora. A letra era extensa, contava uma história com mentiras, mudanças e decepção, enfim nada que justificasse sua aversão por tal melodia. Nunca soube o nome da música, mas sabia que ela era a única coisa que lhe corroía. Enquanto tentava sufocar sua raiva no travesseiro, os fones estavam fixos em seus ouvidos esperando que a musica acabasse.

19 fevereiro, 2010

Em sintonia

Zé caminhava sozinho a beira da estrada
Sentia o vento gélido que só a madrugada produzia percorrer-lhe a espinha
De qualquer forma isso o deixava extremamente feliz
A brisa em sua forma mais pura

Zé dizia que a madrugada era a parte mais bonita da vida
É quando o silencio domina a terra
Deixando transparecer toda sua verdadeira face
Como anjos a brincar. Ele dizia a sorrir.

Zé caminhava sozinho a beira da estrada
Contando segredos para a lua
- Na qual ele dizia ser eternamente apaixonado –
Rindo de piadas antigas.

Zé gostava de enxergar o mundo assim
Logo que adormecera.

As luzes das cidades vistas de longe parecem grandes vagalumes a marchar.
E nada se compara ao entrelaçar-se das nuvens as montanhas,
Que só acontece assim, na madrugada
Doce e infinita madrugada
Seus sons são melodias eternas para meus ouvidos
Causando-me sensações de alivio.

Zé sempre quisera adormecer mais uma vez
Enquanto isso admirava o sol que acabara de nascer
Apagando todos os seus vestígios de deleite.

16 fevereiro, 2010

Flores murcham

Ela o olhara de soslaio
ele escondia um sorriso.

Ele acariciava o seu rosto,
ela pensava em beijá-lo.

Ela entrelaçava sua perna na dele,
ele consentia calado.

Ele balbuciava palavras de amor,
ela ria de tudo.

Ela deslizava sua mão pelos seus cabelos,
ele a agarrava.

Ele pensava neles juntos,
ela dormia ao seu lado.

Ela o olhara nos olhos,
ele a olhara nos olhos.

                                   A verdade lhes pareceu corroer.

10 fevereiro, 2010

I need more time just to make things right

O som que a brisa traz já é desconcertante,
Parece não ter a mesma sinfonia.
A noite passada sonhava com nós dois, juntos.
Agora isso tudo parece ridículo.
Mais um estranho a te olhar em um quarto escuro,
Com pensamentos tão impuros que parecem lhe ferir.

O teu cheiro continua a impregnar minhas vestes
Pareço enlouquecer.
Ainda o vejo quando fecho os olhos.
E tudo isso parece um grande absurdo para o meu ego.
Sentimentos forjados. Desnecessários. Vagos.
Então talvez você realmente seja o meu passatempo preferido.

06 fevereiro, 2010

Paranóia programada

Quatro paredes brancas o cercavam. O clima estava assustadoramente calmo e a luz fraca apontando para a maca centralizada contribuía para isso. Dois indivíduos entraram no local, suas vozes eram como murmúrios, as palavras eram inaudíveis, mas continham um tom maquiavélico. Estava deitado na maca, olhava para o teto tentando se concentrar, mas o som do bisturi era desagradável. Mantinha as mãos entrelaçadas sobre a barriga, e mordia o lábio inferior para conter sua angustia. Um dos indivíduos se aproximou com a seringa, segurou sua cabeça, e logo não sentiu mais nada, estava sob efeito da anestesia. Privado de um dos sentidos, ele ficou apavorado; tentava olhar a seu redor, mas não conseguia, sua vista estava embaçada; quando tentou limpar seus olhos sentiu o cheiro de sangue e o viu escorrendo pelos dedos. Começou a gritar por socorro e então o outro indivíduo apertou seu braço aplicando um tranqulizante. Não sentiu mais nada, a inconsciência o vencera. Uma hora depois ele acorda sozinho, levanta-se confuso e então uma mulher bate na porta; percebendo que não tinha a visto antes, pergunta curioso:
- O que aconteceu comigo?
- Tentaram arrancar sua sanidade, mas não conseguiram. Você não cedeu. – respondeu a mulher friamente
Atordoado com aquela explicação, não ousou questionar mais nada. Saiu rapidamente do local e enquanto tentava assimilar o que havia acontecido, ele ouvia a mulher gritar:
- Próximo!

04 fevereiro, 2010

It's terrible life

A porta está se abrindo, precisamos de sorte.
Estamos a alguns passos daquele mundo. Aquele que sempre esteve tão longe, mas que agora se aproxima rapidamente. Um mundo muito bem explorado, mas só na teoria; agora nos resta a prática, entraremos definitivamente nessa rotina desgastante. Conheceremos o auge da falsidade e ganância, pessoas egoístas, hipócritas e competitivas; porcos capitalistas em grande escala. Seremos julgados por erros e nossos acertos serão apenas obrigação. Pensamentos pessimistas cercam minha mente. A vida escolar foi só uma preparação para esse novo mundo. A “independência” será conquistada e a identidade perdida. Não há como voltar.
A porta está se abrindo e ninguém irá nos desejar boa sorte, aliás, acho que nem ela nos ajudará.
Preparadas ou não, aqui vamos nós!

Memória de papel

Arrumando gavetas

Encontrei minha vida em papéis
Rasgados,
Sujos,
Amassados,
Histórias inesquecíveis, emoções incomparáveis
Papéis tão velhos, com a tinta tão viva
As lembranças estavam claras em minha mente

Arrumando gavetas
Escolhi lembranças
Vagas,
Recentes,
Relativas,
Joguei – as fora, sem culpa,
Sem remorso

Arrumando gavetas
Senti um vazio
Achei pedaços, restos
Histórias que pareciam inexistir
Não posso montar meu quebra cabeça
As peças sumiram
Separei lembranças e tentei resgatá-las
Em vão

Arrumando gavetas
Confundi minha vida

03 fevereiro, 2010

Primeiros rabiscos

Crianças desenham com extrema originalidade,o traço firme e inocente esboça de modo criativo tudo ao seu redor. Atingem involuntariamente o mais puro sentido de desenhar. Rabiscos podem ser tudo e formas só obrigação. Os membros da família, os amigos, um pássaro, um prédio, o contorno das mão, tudo de um jeito único. As cores surpreendem, grama vermelha, pessoas verdes, árvores azuis; enfim a realidade como se sente e não como se vê. Crianças possuem uma imaginação incomparável, limpa e inusitada; até que os anos se passam e as técnicas substituem a espontaneidade.

31 janeiro, 2010

Conflito confuso

Maldita briga
Era só um desentendimento bobo,
Mas os ânimos estavam alterados
Tudo saiu do controle
A discussão virava guerra
E as palavras uma arma
Palavras envenenadas e violentas
Verdades brutalmente cuspidas
Acusações hostis e mentiras contraditórias
As palavras são como bombas que nos mesmos programamos
E seus estilhaços cortam e demoram a cicatrizar
As palavras machucaram e ambos saíram feridos
Mau dita briga

Pequenos desvios

Nós, brasileiros, somos muito solidários; um terremoto atinge um país de outra região e nós fornecemos mais de R$380 mil sem hesitar. É, a cada dia me convenço de nossa solidariedade, pois moradores de bairro na zona leste de SP estão completamente desestruturados há mais de um mês devido as enchentes, mas nosso super prefeito com sua grande generosidade não deixou de os ajudar, distribuiu 1 tonelada de promessas e 350kg de desculpas.

Definitivamente ele é muito bom, batam palmas para o nosso querido prefeito, mais uma vez ele cumpriu sua promessa: não aumentou a passagem em 2009, mas foi só 2010 aparecer no calendário que o nosso transporte ficou mais caro. Cada vez mais pessoas não terão condições de se deslocar para outros lugares, mas vamos pensar pelo lado bom: elas vão ter mais tempo para assistir o melhor reality show de todos, 17 pessoas confinadas em uma casa cercadas por câmeras, muito produtivo, não é?

Muitas pessoas morreram festejando em Angra dos Reis, Ilha Grande, São Luiz de Paraitinga, os deslizamentos de terra não param de acontecer; mas quando o Carnaval está chegando nada mais importa, as bundas estarão em todos os canais e o que seria mais importante que isso? Eu realmente não sei.

24 janeiro, 2010

O haiti é aqui

É difícil aceitar o fardo desta terra incomum
Por que teu seio ainda chora?
Por que tentas nos expulsar daqui?
Somos homens de poucas virtudes sem seus recursos

Perdoe-nos por destruir suas graças
Perdoe-nos por desobedecer a suas regras
Pois nós, homens de pouca fé, somos gananciosos.
E as pedras preciosas nos parecem hipnotizar,
Transformando-nos em animais.

Tua ira parece cair sobre nós como pecados eternos
Mostrando-nos mais uma vez a tua grandeza.

Há muito sangue derramado
Poucos de nós continuam aqui, esperançosos.
A tua conseqüência será nossa verdade
Pois nossos olhos foram lavados.
E tornaremo-la farta novamente.

Olhe por nós.

01 janeiro, 2010

A nossa música nunca mais tocou.

Amanhecera novamente em São Paulo, uma leve brisa fria acompanhava o sol que se erguia no céu. Filipe acordara ao som de Cazuza.
“Às vezes te odeio por quase um segundo, depois te amo mais...”.
Sonhara mais uma vez com Ana, e no dia em que as horas pareceram anos.

... 

Foi em alguma praça do centro. Filipe estava apreensivo, olhava as horas com certo receio, sua ânsia parecia corroê-lo. Andava de um lado para outro, às vezes alternava e sentava em um banco qualquer, batia o pé no chão involuntariamente varias vezes. Estava à espera de Ana, que estava atrasada 20 minutos.

Algumas folhas secas caiam no exato momento em que Ana chegara, depois de 35 minutos de espera. Com um caminhar tranqüilo, trazia um sorriso misterioso que a deixara muito mais linda aos olhos de Filipe, que agora a olhava estático, deixando escapar um sorriso de alivio.

Ana o olhara nos olhos com certa tristeza. Filipe temia por qualquer reação. Antes de Ana tentar delinear qualquer tipo de palavra, Filipe abraçou-a e em silencio beijou seus lábios. Ana esquivou-se e segurando sua mão, disse a Filipe o que ele tentara não aceitar a semanas. “Você sabia que isso não ia dar certo, sinto muito”.

... 

Filipe levantara e afagando os cabelos olhou um retrato de Ana a sorrir que estava em sua cabeceira. Pegou-o em mãos e suspirando, jogou-o fora. Naquele momento ele sentira o beijo que não lhe foi correspondido.
“Será que você ainda pensa em mim, será que você ainda pensa...”.


Trechos de Quase um segundo – Cazuza.