27 agosto, 2009

Paranóia.

Eu sempre estive aqui, sempre no mesmo lugar.
Observando os mesmos passos, as mesmas expressões.
As vezes vinha pra me desfazer dos meus pesadelos constantes.
Ali, o mundo se ajoelhava aos meus pés.
Podia enxergar tudo, ouvir tudo. Alguma espécie de líder.
As pessoas que ali trafegavam eram só meros mortais diante de mim,
tolos, sem percepção. Mentes vazias.
Eu as manipulava, meus próprios fantoches.
Agora eu era o estranho que invadira suas mentes.
Tinha formado o meu próprio desejo utópico.
Até que uma sirene alta tocou em meus ouvidos, me ensurdecendo.
Algum tipo de alucinação provisória.
Eu estava sob efeito de analgésicos, anestesiada em uma maca.

24 agosto, 2009

Comparações

A vida é um filme
Pode ter vários gêneros ao mesmo tempo
A vida é uma peça de teatro
Os coadjuvantes são muito mais importantes do que se pensa
A vida é um livro
Não pode ser julgada pela capa
A vida é uma história em quadrinhos
Pode se contar grandes coisas em poucas páginas
A vida é um quadro
Nós escolhemos a cor da tinta
A vida é uma música
Tentamos cantá-la
A vida é uma foto
Tentamos sorrir
A vida é uma poesia
Penso que sei escrever

A vida não se compara a arte
A vida é complexa demais pra ser definida
A vida é simplesmente a vida

23 agosto, 2009

Dia estranho

Acordei com o barulho do rádio. O clima estava diferente, algo estranho no ar. A música que tocava era a mesma de sempre, mas dessa vez parecia ter sentido, ter conteúdo. Deve ser impressão. Levantei devagar e com passos sonolentos fui até a janela na esperança de ouvir alguma conversa superficial; ouvi as mesmas coisas de sempre mas agora elas pareciam sinceras, elas tinham um tom crítico diferente, parece até que as pessoas lembraram que o senso crítico existe.É, acho que acordei alienada. Ou talvez nem tenha acordado. Dia de eleição, minha zona eleitoral é longe. Saí de casa cedo, peguei o negreiro lotado, mas que ainda não cuspia gente pela janela. No caminho notei que as pessoas, apesar de estarem perto demais, estavam rígidas e atentas, diria até que estavam assustadas; pareciam preocupadas com os problemas que assistiam da janela. Sinal vermelho,o ônibus parou. E de repente todos se direcionaram a parte direita do ônibus como se tentassem ver alguma coisa. Logo deduzi que era um acidente, em que as pessoas querem ver o corpo estirado e o sangue no chão. Mas as pessoas estavam voltando para seus lugares com expressões indecifráveis. Resolvi ver o que era, quando cheguei próximo a janela vi que era só uma frase, uma frase que eu sempre vi ali, ela dizia “vote nulo” com o símbolo da anarquia em cima. Sempre li aquela frase com indiferença, nunca acreditei que votar nulo fosse a solução; mas agora aquelas pessoas a liam como se aquilo fosse a salvação. Já ouvi falar que uma frase no muro pode mudar sua vida, mas será que é verdade? Acho que sim, pelo menos hoje. Continuamos o trajeto lentamente -como já é de costume em São Paulo- e logo a frente estava um homem escrevendo no muro, mais uma vez todos se apressaram pra ver. Minha visão não era tão privilegiada, mas ele escrevia algo como “eles não devem ter direito ao voto” seguido pelo desenho de um burguês engravatado. Todos voltaram aos seus lugares, alguns perderam os seus, mas isso não os abalava, eles continuavam com expressões indecifráveis. Em seguida paramos próximo a um bar, mas ele não estava movimentado e barulhento como nos outros dias; todos estavam em silêncio assistindo televisão. “Certamente é alguma novela” pensei comigo. Até que ouvi uma voz que dizia: “Confusão Legislativa: Alguém ainda não identificado do Congresso se atrapalha e sanciona lei que proíbe que qualquer indivíduo que apresente algum vínculo com um partido eleitoral vote!”. Fiquei pasma e indignada. Como isso era possível? Quem sancionou essa lei?Ou melhor, quem fez essa lei? Os passageiros do ônibus pareciam satisfeitos, como se aquilo tudo fosse normal. Lembrei do muro anterior e pensei: “Será que agora tudo que estiver escrito nos muros vai virar lei?”.Isso era paranóia demais. É, realmente devo estar dormindo. Quando cheguei em minha zona eleitoral estava vazia. Tinham três pessoas na fila. Não estava muito confiante porque esse ano os candidatos não foram os melhores –novidade –, mas já tinha decidido. Chegou a minha vez, fiquei olhando a urna e devido as circunstâncias do dia, repentinamente decidi votar nulo. Voltei pra casa confusa, mas ansiosa pra saber qual seria o resultado desse dia estranho. No outro dia de manhã, vi a reportagem no jornal: “Fato histórico: após a contagem dos votos, houve uma surpresa. Todos os votos foram nulos e como não havia nenhum candidato em vantagem. Declaramos em primeira mão: “o Brasil está em ANARQUIA!”. Acordei com o barulho do rádio, as músicas eram as mesmas e as conversas também. Era só um sonho. Um sonho ridículo. Um sonho impossível. Um sonho intrigante.

22 agosto, 2009

Uma rotina diferente

Ontem conheci um fã da rotina. Ele me contou tudo o que costumava fazer. Não gastou muito tempo, afinal ele sempre fazia a mesma coisa. Pra mim, tudo pareceu entediante, mas a empolgação em sua voz contradizia meus pensamentos. Continuei ouvindo-o. Ele me contou sobre seus gostos e preferências e com o passar do tempo tudo ficava previsível, eu podia deduzir e acertar, porém o entusiasmo que usava para proferir cada palavra me manteve prestando atenção. Ele me contou coisas de sua infância e adolescência. Suas histórias tinham menos arrependimento do que as que já ouvira, ele era confiante, nunca havia hesitado – a menos que tenha omitido este fato. Ele sabia aproveitar cada momento, ele era bem-humorado, e notei que o principal motivo de suas piadas era ele mesmo. Isso me chamou atenção e acho que a partir daí nos tornávamos amigos.
Ele não se considerava um fã da rotina, tanto porque ele nem acreditava na rotina. Na verdade ele dizia que a rotina é como um conjunto de tempo e necessidade, e não lugares, pessoas e sensações como a sociedade costuma generalizar. Ele afirmava que todos gostam da rotina, só não gostam do tempo que certas coisas os tiram; tempo esse que se conquistado logo é rotulado de tédio. Em seu conceito, “fugir da rotina” é impossível, pra ele expressão certa seria “reinventar a rotina” ou simplesmente “fugir da monotonia”, que normalmente é o que as pessoas associam a rotina.
A rotina o deixava seguro, mas não ao ponto de prender se a ela. É complicado, é como se ele soubesse o que vai acontecer e gostasse de saber, mas se acontecer algo diferente ele aceitaria e aproveitaria do mesmo jeito. É como se ele gostasse de mudar, mas não almejasse a mudança, porque se ele a almejasse ele deixaria de viver o presente. É complicado.
Ontem conheci um apreciador da rotina e ele me ensinou muitas coisas.

21 agosto, 2009

Intervalo.

Ela observava tudo apenas de longe
Não queria fazer parte de toda aquela besteira fútil e desnecessária.
Pessoas se deixando levar pelo ego
Tentando criar outras características. Fantoches do capitalismo.
Enojada de todo aquele desfile, ela tenta se refugiar em algum desejo utópico.
Até que o sinal bate
Anunciando o recomeço da padronização.

08 agosto, 2009

O inesperado

Sábado á noite.O tempo começava a esfriar, o vento soprava ainda em silêncio. E lá estavámos nós no mesmo lugar de sempre. Nossa conversa variava entre filmes e seriados, as vezes oscilando para hábitos da família. Poucas pessoas circulavam pelas ruas - e as poucas que víamos estava com pressa. Os comércios começavam a fechar, a rua ficava cada vez mais vazia. E nós continuávamos lá. Nem percebíamos o tempo passar. Percebíamos apenas que nossas vozes ficavam cada vez mais solitárias, mas nada que nos fizesse sair dali. O assunto já tinha acabado, mas lembrei de uma situação corriqueira e comecei a contar. Enquanto contava, olhava para os degraus que nos serviam de assento. Ouvi passos vindo em nossa direção, mas não me virei para vê-los. Os passos passaram direto e pararam perto de nós. Continuei contando a “história”, mas notei que minhas amigas não estavam mais me ouvindo. Levantei a cabeça para perguntar o que tinha acontecido, e seus olhos estavam disfarçadamente assustados. Foi quando eu olhei para o lado e o vi. Um homem de bermuda e camiseta regata parado próximo ao orelhão que ficava a nossa frente. Seus cabelos eram curtos, seu olhar guardava algum mistério e sua mão segurava uma faca. A lâmina da faca bateu no poste fazendo um barulho estridente. Esquecemos de respirar. Nossos corações aceleraram, e bateram forte como nunca haviam batido. Ficamos silenciosamente apavoradas, mas nossos olhos nos condenavam. Com a voz ainda tensa tentei continuar a falar. Seu olhar indecifrável nos encarou uma por uma. Em sua boca abriu-se um sorriso um tanto quanto perturbador e com um tom de voz indiferente nos disse “Desculpa”. Saiu caminhando batendo mais uma vez a faca no poste – nos causando arrepios - dizendo alguma coisa ininteligível. Não esperamos ele desaparecer para sairmos daquele lugar. Andamos apressadas rindo de desespero. Chegamos perto da minha casa e paramos, ficamos relembrando aqueles momentos e cada pequeno detalhe e assim como todas nossas conversas, imaginamos o que poderia ter acontecido e até fizemos planos para o nosso enterro. E assim nossos devaneios começavam

07 agosto, 2009

Inconsciência estável

Ela estava dormindo e parecia estar longe de acordar. Seu rosto estava tranquilo e seus olhos sorriam. A inconsciência parecia confortável. Até que o toque do telefone a interrompeu, seus olhos se abriram de repente alarmados com o barulho. Negando-se a correr, espreguiçou-se e levantou-se devagar. Com passos curtos chegou ao telefone, atendeu e era apenas um engano. Isso não a aborreceu. Desligou o telefone maquinalmente, como se este nem tivesse tocado. Bocejando e distraída foi a cozinha e percebeu que estava sozinha. Isso não foi surpresa, exceto pelo fato de ser domingo, mas ela não se interessou em descobrir o motivo. Em reação habitual cumpriu suas obrigações enquanto ouvia música alta. Ela dançava e cantarolava com um leve sorriso. Lá fora a chuva começava a cair, mas a fúria do vento e a intensidade dos trovões pareciam irrelevantes para ela, até que a música parou subitamente e ela percebeu que a luz acabara. Isso não a irritou. Mais uma vez sem pressa, ela foi procurar uma vela, mas a falta de atenção a fez tropeçar e cair, depois de um breve silêncio suas risadas encheram a casa. Levantou rapidamente, ainda sorrindo, e quando achou a vela percebeu que a luz voltara. Parece que nada estragaria seu dia. Sem mais nada para fazer abriu a janela, o vento gelado soprou em seu rosto e ela murmurou para si mesma: ”Que lindo dia!”; então uma gota de chuva caiu em sua mão causando arrepios, e com um largo sorriso ela corrigiu: ”Que lindo dia feio!”. Ela ainda estava sonhando, sonhando acordada e parecia estar longe de realmente despertar.

03 agosto, 2009

Inspiração

Mais uma madrugada tentando encontrá-la. Ela não está em minha raiva nem em meus pesadelos. Não está em minhas paranóias nem frustrações. Sei que sua presença é imprevisível, mas por algum motivo desconhecido eu não consigo deixá-la. Continuo em minha busca silenciosa, mas ela insiste em se esconder. Não a encontrei em minha rotina nem em meus anseios. Não a encontrei em minhas alegrias nem distrações. Talvez esteja procurando no lugar errado. Talvez ela esteja ocupada. Talvez ela simplesmente não exista para ser encontrada. É, acho que a última opção me convence. Agora a espera é o que me resta.