20 julho, 2009

Observação amigável

Era noite. E eu estava sozinho, caminhando, só para passar o tempo. Estava ameaçando chover, então tinha certeza que estaria completamente sozinho; até que viro a esquina e lá estão elas, como sempre. Tinha me esquecido. Eram seis meninas, estavam sentadas no lugar de costume. Quando passei por elas nada aconteceu, era como se nada existisse ao redor delas. Pelo o que eu observara elas já se conheciam a algum tempo, pareciam confiar e respeitar umas as outras. Bom, eu sempre passava por ali, ás vezes escutava elas, falavam de assuntos sérios, mas parece que alguém sempre falava uma besteira e elas começavam a rir e de repente elas paravam...era estranho, mas isso me alegrava.
Conversas, desabafos, confissões, discussões, brincadeiras, histórias, tolices, ironia, gírias internas. Nem tão lógica e nem tão complexa, assim parece ser a amizade delas. Não tão lógica porque parece que não seguem padrões. E nem tão complexa, porque parecem ser normais, quer dizer o normal que era pra ser, caso não existissem ideologias explicitamente manipuladoras. É, acho que nem eu sei o que estou pensando. Vou voltar pra casa. Vou ter que passar por elas novamente. Elas continuavam conversando, mas pelo o que eu ouvi parecia a despedida de cada dia:
- O que a gente vai fazer amanhã?
- Ah, não sei. Não tem nada pra fazer!
- Então é isso, vamos fazer nada juntas!!

Todas concordaram e começaram a rir.Tentei esconder o riso, mas elas perceberam. Elas me encararam com um pouco de vergonha. Continuei andando tentando entendê-las.

PS: "A amizade é um meio de nos isolarmos
da humanidade cultivando algumas pessoas."
[Carlos Drummond de Andrade]
Feliz Dia do Amigo!!

18 julho, 2009

Suposições confortáveis

Quarta feira à noite. Lá está ele, numa condição que parece não gostar. Ele é o líder da hierarquia. Hierarquia essa, que ele tenta nos convencer de que não é obrigatória. Ele tenta se colocar como parte de nós. E até consegue nos iludir fazendo daquilo uma grande democracia. Ele gosta de inovar. Gosta de interagir para aprender, afinal “não somos baldes vazios”. Ele gosta de desconstruir os padrões. Mas ele sabe que no fim, ele sempre tem que ser o líder. Ele sempre tem que decidir. Ele realmente não gosta da parte que o torna o líder. Ele acha estúpido. Mas pra ele, a vontade de desenvolver nosso senso crítico supera seu desprezo pela liderança.

Quinta feira à noite. Lá está ele, parece não se incomodar com aquela condição. Ele é o líder da hierarquia. Ele mostra sua autoridade, mas sem ser arrogante como os outros. Ele demonstra todo seu interesse, sua paixão e sua determinação por aquilo que faz. Ele também tenta se colocar como parte de nós. Ele percebe tudo, se preocupa e incentiva a todos. Mostra sua satisfação a cada pequeno progresso. Para ele, a parte que realmente o torna líder é encarada como uma consequência. Ele não gosta de obedecer aos padrões, mas sabe que ás vezes é necessário e tenta ser o mais justo possível. Mas pra ele a vontade de ensinar e de revolucionar supera seu desprezo pelos padrões da sociedade.

Sexta feira à noite. Lá estão eles, não estão mais naquela condição. Não são mais líderes. Estão conversando, filosofando sobre a vida, rindo de suposições, imaginando situações, discutindo soluções, fazendo planos para os dias que estão por vir. Eles não são mais líderes. Não, eles não desistiram. Apenas estão de férias.

Preferências familiares

Estávamos todos na sala, sentados no sofá. Enquanto eu procurava algo para fazer, eles pareciam estar hipnotizados assistindo aquela novela estúpida. Naquele momento, qualquer barulho que lhes tirasse atenção seria um pecado. O tédio me fez observar. Minha primeira observação parecia óbvia, mas notei que todos os móveis estavam direcionados a televisão, como se todos tivessem que servi-la, talvez até numa espécie de hierarquia. Percebi também o quanto as emoções são manipuladas através da música de fundo, era como se aquelas pessoas reagissem ao som e não as imagens. Por fim minhas paranóias cessaram, mas o silêncio com que aquelas pessoas assistiam televisão e a hierarquia recém descoberta começava a me incomodar. Involuntariamente, deixei o lápis cair no chão, quebrando aquele silêncio manipulado, imediatamente recebi olhares irritados. A partir desse momento percebi que era melhor não incomodá-los. No fim de tramas inúteis de vilões e mocinhos e músicas indianas que nínguem entende, eles voltaram a conversar. Comentários fúteis e contos do dia-a-dia encheram a sala, enquanto uma reportagem sobre a poluição da água passava despercebida.

15 julho, 2009

O encantador de pipas.

Era julho, as folhas das árvores já estavam ao chão,
era o começo do inverno. Nada parecia mais mórbido.
O céu estava acinzentado. Nada se via, além das
gigantescas nuvens carregadas, todas amontoadas
sobre as outras, como se estivessem tentando impedir
da luz entrar. As ruas cheiravam a solidão e humidade.
Até os pássaros resolveram não cantar. Haviam poucas
pessoas perambulando pelas ruas, todas cabisbaixas, com
um semblante frio e arredio. Agora não havia mais
comprimentos, nem grandes sorrisos. A gentileza os
abandonara. Sempre com muita pressa.
Os prédios agora estavam cada vez mais feios, sem vida
e sem cor. A cidade inteira, parecia estar de luto eterno.
Até os carros pareciam mais silenciosos. Os mais
valentões da cidade, agora estavam em suas casas,
todos quietos, nada os perturbaria.
Ao observar tudo aquilo, me senti inteiramente perturbada,
sentimentos isolados vieram a tona, me deixando aflita.
Até que ouvi pequenos gritos, mas esses não pareciam de
tormento, eles eram de euforia, alegria, mais precisamente.
Ao olhar para trás, avistei um pequeno grupo de crianças a
correr, se empurrando e dando gargalhadas. Estavam todas
se amontoando em cima de um garoto que estava a soltar
um pipa. Tropeçando e caindo sem olhar para trás, elas
apenas observavam como a pipa voava no céu, e como aquilo as encantava.
Os olhos delas brilhavam como nunca, como
se aquilo fosse tudo o que elas precisavam.
Enfim, pararam na minha frente, agora todos falavam ao mesmo tempo, algo como:
- É a minha vez.
- Olha como ela voa.
- Está tão alta.

E o garoto que segurava o pipa, parecia estar hipnotizado.
Aquilo com certeza o tranquilizava.
Enquanto os garotos faziam festa, a cidade parecia renascer.
Era julho, as folhas das árvores já estavam ao chão,
era o começo do inverno.

14 julho, 2009

Olhos e olhares

Olhares atentos esperam o ônibus
Olhos inocentes não sabem o que fazer
Olhares tensos atravessam a rua
Olhos imprudentes entram na contramão
Olhares impacientes avançam o sinal
Olhos assustados veem um acidente
Olhares cínicos não param pra ajudar
Olhos agoniados sofrem com a dor
Olhares angustiantes suplicam por mais tempo
Mas não há o que fazer
Por fim, olhos fechados sem nenhuma esperança de acordar.
Olhares tristes procuram o culpado
Olhos intrometidos avisam que ele não está mais lá
Tudo acabou
Os olhares se afastam
E os olhos com rancor e medo são os únicos que restam

Olhos atentos...
Olhares tensos...
As vezes, só o dos pedestres não é o bastante.

13 julho, 2009

Distração fatal

Ela está sob efeito do álcool, está alucinada tentando achar a verdade em seus sonhos ilusórios. Entre casos mal feitos e arrependimentos, ela pede mais uma vodka. Virando copos ela consegue controlar a situação, esquecer algumas atitudes que havia tomado. Naquele mesmo dia, ela havia perdido toda a sua esperança, todos os seus sonhos foram desperdiçados. Sentia-se totalmente desesperada, para ela não havia nada que pudera amenizar a sua situação. E por mais que ela tentasse recordar algumas lembranças valiosas, algo a impedia de continuar nessa distração. No seu décimo copo, ela já estava bêbada demais pra pensar em algo, e logo caiu em cima do balcão, entrou então em um mundo que só ela compreendia, com os olhos fechados, ainda deitada em cima do balcão, entre copos de vodka ela sorri, como se estivesse enfim chegado ao seu melhor estado de espírito.

11 julho, 2009

Lembranças ofuscadas

Tarde de junho. Final de outono. Tudo estava calmo. O tempo estava normal. Nem frio, nem calor. O pôr-do-sol refletia no lago esverdeado. O vento soprava suavemente, espalhando as folhas caídas. Os pássaros, em sincronia, pousavam sob as árvores, como se estivessem em reunião. Nenhum som desconcertante, apenas sons agradáveis. E lá estava ele, contemplando tudo ao seu redor. Respeitava o silêncio de barulhos e assobiava uma música tranquila. Ele estava sozinho, o que o fez perceber que não é só no fim que a vida passa diante de nossos olhos, a solidão também nos faz relembrar.
Seu rosto estava pensativo, seus olhos estavam concentrados. Sua cabeça nunca esteve tão longe e sua memória nunca esteve tão clara. Lembrou de todas suas alegrias, seus amores, amizades, loucuras, dificuldades, brigas, brincadeiras, medos, vícios, sonhos, conquistas. Lembrou até do que se forçou a esquecer. Arrependeu-se de não ter feito, se orgulhou de ter tentado, se surpreendeu de ter tido coragem, se emocionou de ter tido forças. Em poucos minutos, um misto de emoções passava por seu rosto. Passava tão rapidamente que era como se tivesse recordando vinte anos em vinte minutos.
A noite chegava. E as nuvens carregadas também. Ele parecia estar sonoramente sozinho até que os pingos da chuva o fizeram companhia. Quando despertou das lembranças, resolveu ir pra casa, caminhava ainda pensativo e cantarolando uma música que desconhecia. Ele estava surpreso com tudo que havia lembrado, tudo que estava arquivado no meio de tantos problemas, tudo que ele acabou esquecendo sem motivo algum; e no meio dessas lembranças, de repente a alegria tomou conta de seu rosto, ele se lembrou da canção e se apressou ansioso para cantá-la para a única pessoa que a reconheceria.

08 julho, 2009

Rotina de Distração

Clichês entediantes
Informações manipuladas
Propagandas persuasivas
Ignorância animada
Humor imbecil e previsível
Piadas tolas e apelativas
Sorrisos plásticos
Méritos falsos
Ilusões gratuitas
Estupidez em tempo real
Eles estão interagindo
Então o plano deu certo
Pensei ter ouvido verdades,
mas era só mais um programa
É, Bem vindo á televisão (ou pelo menos,a maior parte dela)

03 julho, 2009

Detalhes explícitos

De novo neste lugar. Ele está cheio, aliás, sem nenhum motivo lógico ele sempre está. Tudo está em seu devido lugar, mas sinto algo diferente. Talvez seja a surpresa em perceber os detalhes ou só mais uma das minhas paranóias (apesar de que perceber os detalhes, de certa forma, já é uma paranóia).
Enfim, os poucos diálogos sinceros e distrações saudáveis são quase inaudíveis, pois estão sendo constantemente abafados pelo som das conversas vazias, falsos risos, elogios dissimulados e brincadeiras estúpidas. É injusto, eles são a maioria e sempre iam ser. Precisamos fazer alguma coisa, mas como mudá-los? Como resgatá-los de seus princípios fúteis? É, infelizmente as interrogações continuam.
Contudo, este lugar não costuma me irritar, a menos que o líder da hierarquia do dia fizesse/dissesse algo inútil -o que vem se tornando muito comum ultimamente-. Digamos, que é, no mínimo, interessante ver sua súbita mudança de humor quando lhe é conveniente, a variedade de expressões que podem passar por seu rosto e a nítida superioridade com que se colocam a nós, meros "sem luz". No entanto, não posso ser hipócrita como eles e ignorar o fato de que há exceções. Aqueles que tentam inovar, incentivam e interagem, aqueles que demonstram sua satisfação a cada pequeno progresso. Porém, ainda é injusto, eles são a minoria e sempre iam ser.
É, muitas dúvidas e suposições em minha cabeça. Estou ficando confusa. Todos estão falando ao mesmo tempo, me parece até que em outra língua. Não há compreensão. Minha sanidade está se dissolvendo. De repente consigo captar risos, mas dessa vez não são os risos falsos, nem os saudáveis, são os risos irônicos, os utópicos, os que realmente me divertem. Eles, de fato, me despertaram. Mesmo mentalmente fora da conversa, logo a entendi e comecei a rir com algo como: "eu era tão bicho que ele me chamava de formiga..."

02 julho, 2009

P de contradições

Pesquisa publicada prova
preferencialmente "quarteto fantástico"
pra eles falarem. Parem e pensem.
Por quê? Prossigo
Pela escola praticam a arte de julgar (suposições)
pelos corredores eles falam, falam
Por parte de alguns: puro sarcasmo, hipocrisia talvez.
verdades, mentiras, enganos, conceitos
Do outro lado verdades, mentiras, devaneios, risos
Sentenças precipitadas. Idealizações utópicas
Indiferença, Incompreensão
Enfim, ilusões recíprocas
É como se fossem dois mundos sufocados em seus princípios
Tão sufocado que não percebem o quão parecido eles são
ou o quanto dependem um do outro pra fazer o que é preciso (querem)
Enquanto isso, o impasse continua...

Acabou a Luz!

Acabou a luz
Mergulhei em minhas confusões
me afundei na inércia alheia
me perdi em dúvidas particulares
Procurei um sentido pra tudo
E encontrei perguntas pra nada
Parece que estou me opondo aos meus reflexos
lembrando de tudo e nada ao mesmo tempo
Inconsciência
Devaneios
Finalmente estou boiando
boiando em supostas soluções
Não consigo decidir

Salva pela luz,
Ela voltou!