23 agosto, 2009
Dia estranho
Acordei com o barulho do rádio. O clima estava diferente, algo estranho no ar. A música que tocava era a mesma de sempre, mas dessa vez parecia ter sentido, ter conteúdo. Deve ser impressão. Levantei devagar e com passos sonolentos fui até a janela na esperança de ouvir alguma conversa superficial; ouvi as mesmas coisas de sempre mas agora elas pareciam sinceras, elas tinham um tom crítico diferente, parece até que as pessoas lembraram que o senso crítico existe.É, acho que acordei alienada. Ou talvez nem tenha acordado. Dia de eleição, minha zona eleitoral é longe. Saí de casa cedo, peguei o negreiro lotado, mas que ainda não cuspia gente pela janela. No caminho notei que as pessoas, apesar de estarem perto demais, estavam rígidas e atentas, diria até que estavam assustadas; pareciam preocupadas com os problemas que assistiam da janela. Sinal vermelho,o ônibus parou. E de repente todos se direcionaram a parte direita do ônibus como se tentassem ver alguma coisa. Logo deduzi que era um acidente, em que as pessoas querem ver o corpo estirado e o sangue no chão. Mas as pessoas estavam voltando para seus lugares com expressões indecifráveis. Resolvi ver o que era, quando cheguei próximo a janela vi que era só uma frase, uma frase que eu sempre vi ali, ela dizia “vote nulo” com o símbolo da anarquia em cima. Sempre li aquela frase com indiferença, nunca acreditei que votar nulo fosse a solução; mas agora aquelas pessoas a liam como se aquilo fosse a salvação. Já ouvi falar que uma frase no muro pode mudar sua vida, mas será que é verdade? Acho que sim, pelo menos hoje. Continuamos o trajeto lentamente -como já é de costume em São Paulo- e logo a frente estava um homem escrevendo no muro, mais uma vez todos se apressaram pra ver. Minha visão não era tão privilegiada, mas ele escrevia algo como “eles não devem ter direito ao voto” seguido pelo desenho de um burguês engravatado. Todos voltaram aos seus lugares, alguns perderam os seus, mas isso não os abalava, eles continuavam com expressões indecifráveis. Em seguida paramos próximo a um bar, mas ele não estava movimentado e barulhento como nos outros dias; todos estavam em silêncio assistindo televisão. “Certamente é alguma novela” pensei comigo. Até que ouvi uma voz que dizia: “Confusão Legislativa: Alguém ainda não identificado do Congresso se atrapalha e sanciona lei que proíbe que qualquer indivíduo que apresente algum vínculo com um partido eleitoral vote!”. Fiquei pasma e indignada. Como isso era possível? Quem sancionou essa lei?Ou melhor, quem fez essa lei? Os passageiros do ônibus pareciam satisfeitos, como se aquilo tudo fosse normal. Lembrei do muro anterior e pensei: “Será que agora tudo que estiver escrito nos muros vai virar lei?”.Isso era paranóia demais. É, realmente devo estar dormindo. Quando cheguei em minha zona eleitoral estava vazia. Tinham três pessoas na fila. Não estava muito confiante porque esse ano os candidatos não foram os melhores –novidade –, mas já tinha decidido. Chegou a minha vez, fiquei olhando a urna e devido as circunstâncias do dia, repentinamente decidi votar nulo. Voltei pra casa confusa, mas ansiosa pra saber qual seria o resultado desse dia estranho. No outro dia de manhã, vi a reportagem no jornal: “Fato histórico: após a contagem dos votos, houve uma surpresa. Todos os votos foram nulos e como não havia nenhum candidato em vantagem. Declaramos em primeira mão: “o Brasil está em ANARQUIA!”. Acordei com o barulho do rádio, as músicas eram as mesmas e as conversas também. Era só um sonho. Um sonho ridículo. Um sonho impossível. Um sonho intrigante.
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vai ser gênio, sua gênio. (:
ResponderExcluirchegou a hora de recomeçar (8)
ResponderExcluirMuito bom o texto!
ResponderExcluirE muito legal o sonho tbm, quando entrei na escola e aprendi sobre a democracia pensei ter sido algo grande conquistado no passado, hj em dia em dia vejo que não mudou muita coisa, exceto pelo fato que o poder não está no sangue de alguém, mas sim em seu partido político, e que no final o povo continua sendo fantoche. O jogo do poder só ficou um pouco mais elaborado