13 dezembro, 2010

Existe sempre uma coisa ausente

Existe sempre uma coisa ausente,
mesmo que inaudível,
sucinta.
Há sempre a sensação do não haver,
do que se foi
ou do que se deveria ter feito.
Mas você não se importa,
apenas sente.
Depois ri.
Ri e chora,
apenas por ter sentido.
Ando angustiada demais, meu amigo. Palavrinha antiga essa, angústia. Duas décadas de convívio cotidiano, mas ando. Tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso. Não me venha com essas histórias de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais. Nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha. Veja só que coisa mais individualista, elitista, capitalista. Só queria ser feliz, cara.

Caio Fernando Abreu.

03 dezembro, 2010

Queridos Anônimos

Anônimo:
Adj. 1. Sem o nome ou assinatura do autor. 2. Sem nome ou nomeada; obscuro
Dicionário Aurélio

Até que ponto somos anônimos? Qual a importância do tão requisitado nome? E os tais nomes garantem "reconhecimento"?

O homem olhava a mulher que aguardava o ônibus com os filhos, que fitavam curiosos o cachorro do senhor que comprava o jornal. A moça conversava com a amiga que observava o rapaz com fones no ouvido, que por sua vez assistia o desespero do menino que estava atrasado e pedia pra o ônibus parar.

Os anônimos são encantadores com suas infinitas semelhanças distintas. Particularidades sutis e sonhos estampados em simples olhares. Porém, há de convir que alguns tendem a ser desprezíveis, superficialmente, mas ainda sim desprezíveis. Mas independente de qualquer coisa, os anônimos são cativantes em todos os aspectos, instigantes.

Repentinamente a impaciência se fez comum em todos os semblantes, a espera já se estendia por um longo tempo. A menina que mais parecia uma boneca perguntou a senhora com roupas floridas que contrariava o dia cinzento:
- Que horas são, por favor?
- 7h30 - respondeu num tom afável
- Obrigada

A partir do convivío (não verbal) e de qualidades (supositórias) que atribuímos, os anônimos deixam este posto; fazendo com que sua presença seja confortadora e até mesmo familiar. Os gestos quebram os anonimatos, os tais nomes se tornam dispensáveis. Somos lembrados apenas por nossa sincera e anônima mudez.

Enfim a espera termina. O motorista aguarda todos subirem, enquanto dois amigos tomavam coragem para pedir carona ao cobrador, que por sua vez fitava o nada até ser surpreendido pelo trovão que anunciava a chuva.

Ah, os anônimos, seus olhares se tornam expressivos mesmo na inexpressão.

02 dezembro, 2010

Stupid bro

O respeito deixou de ser mútuo
Toda a admiração que se tinha foi diluida numa jarra de indiferença
O héroi nacional agora é apenas um coadjuvante cumprindo seu dever
E você não pode fazer nada
O convívio te obriga a se conter, limitar gestos e palavras
Colocar aquela velha máscara remendada e tomar uma boa dose de adaptação
Pois é, se decepcionar é um ciclo, se acostume, todos o farão.