29 outubro, 2010

Trago boas novas

Lembro-me das vezes que íamos ao cinema
- quando esta era a única opção de nos divertir da época.
E era uma boa época.
Riamos de maneira demasiada,
por nenhum motivo aparente.
As ruas tinham um cheiro de rum
e as mulheres vestiam-se para partir
alguns corações desavisados.
Com aqueles espartilhos justos,
exuberando seus seios fartos e noviços.

E eu morava perto do centro.
E da minha sacada eu via toda a cidade,
ou o que eu imaginava que era a cidade.
Via pessoas vazias,
cachorros solitários
e algumas boas moças miúdas de bochechas rosadas.

E eu admirava.
Admirava e bebia.
Admirava, bebia e fumava.
Naquela época, era um bom requisito fumar.
E eu tentava me encaixar
nesta sociedade de fumantes de bom porte.

Por vezes,
ensaiava no espelho algum caráter provisório.
E fumava.
E ria.
E era uma boa época.

05 outubro, 2010

We come alive

Esse estado de putrefação mental
seria apenas mais um estado
se este corpo que o abriga
não estivesse por inteiro morto.

e as pálpebras saltadas
conseguinte de muitas noites em claro
a ver estrelas tão vivas e invejá-las.
Todas tão altas
como se o amanhecer
fosse tardar a chegar
como se elas não fossem incineradas
com os novos raios a surgir.

a pele pálida,
feito corpo sem alma
apenas para sofrer e perdurar.

enrijecida está a lucidez
e ela comemora,
comemora por não fazer parte
da maioria fatídica de humanos
a fingirem racionalidade
e a se perderem em bares sujos e frustrações.

E a vida segue assim
a invejá-los e caçoá-los
sem uma rotina pré determinada
apenas sentindo os vermes a carcome-la
com a mesma velocidade de amores passados.